Recentemente, a prática de pais que utilizam a inteligência artificial, especialmente o recurso de voz do ChatGPT, como uma “babá” digital para seus filhos pequenos gerou discussões em plataformas como Reddit e X. Muitos pais relataram usar o chatbot para entreter, acalmar ou “ganhar tempo” em meio a tarefas domésticas.
Um caso notório foi o de Josh, um pai que, ao dar o celular ao filho de quatro anos para conversar com o ChatGPT sobre “Thomas, o Trem”, encontrou o menino ainda engajado na conversa duas horas depois, com um registro de mais de 10 mil palavras. Outros, como Saral Kaushik, usaram a IA para criar histórias. Contudo, a empolgação inicial frequentemente é seguida por sentimentos de culpa e preocupação por parte dos adultos.
Mas especialistas alertam: a prática é preocupante.
Contato Humano é Insustituível no Desenvolvimento Infantil
De acordo com o psicólogo clínico Paulo Cesar Porto Martins (PUCPR), o desenvolvimento infantil depende crucialmente do contato e da interação social humana. Ele explica que a “teoria do apego” demonstra que as crianças aprendem através de respostas autênticas e emocionais, algo que a IA não pode oferecer.
Martins alerta que interações com chatbots carecem da variabilidade emocional de relações reais, o que é vital para a formação de esquemas cognitivos. “A IA impede que a criança vivencie frustrações adaptativas e negociações sociais, essenciais para desenvolver empatia e resolução de conflitos”, afirma o especialista.
O Perigo da Confusão entre Fantasia e Realidade
A dificuldade de crianças pequenas em distinguir fantasia e realidade torna a simulação de personalidades pela IA perigosa. Martins adverte que, ao acreditar estar conversando com uma pessoa real, a criança pode desenvolver uma “desconexão da realidade” e crenças distorcidas sobre relacionamentos. Exemplos incluem achar que será sempre compreendida sem esforço ou que não precisa tolerar desconforto emocional, o que prejudica o aprendizado sobre relações humanas autênticas.
Impacto no Vínculo Familiar
A substituição dos pais pela IA no papel de companhia ou consolo afeta diretamente o vínculo familiar. O psicólogo afirma que, ao delegar o cuidado afetivo à tecnologia, os pais podem ensinar indiretamente à criança que seus sentimentos devem ser geridos por algoritmos, e não por pessoas.
Adicionalmente, usar a IA para preencher o “tempo vazio” priva a criança de momentos essenciais para criar, refletir e desenvolver a autorregulação, evitando o desconforto emocional necessário para o crescimento psicológico.
Uso Consciente e Limitado
Martins enfatiza que o problema reside na intensidade e no modo de uso da tecnologia, não na tecnologia em si. A IA pode ser uma ferramenta educativa, desde que usada com supervisão e tempo limitado — idealmente, até 30 minutos diários para maiores de cinco anos.
O especialista recomenda:
- Estabelecer limites de tempo claros;
- Acompanhar o uso e conversar sobre o conteúdo com a criança;
- Explicar que a IA é uma máquina, não um amigo;
- Observar sinais de dependência emocional;
- Fortalecer vínculos offline com brincadeiras e conversas;
- Dar o exemplo, demonstrando autocontrole no uso de telas.
Em suma, a tecnologia pode ser uma aliada, mas nunca um substituto da presença, do afeto e da interação humana para o desenvolvimento saudável da criança. O uso excessivo e sem supervisão do recurso de voz do ChatGPT como babá, portanto, é desaconselhável.