Com a alarmante estimativa da ONU de que uma língua indígena morre a cada duas semanas, jovens ativistas e tecnólogos estão usando a robótica e a inteligência artificial para reverter a perda cultural. Danielle Boyer, de 24 anos, da comunidade indígena Anishinaabe em Michigan, é uma dessas pioneiras. Ela cresceu falando pouco o Anishinaabemowin, a língua de seu povo, um reflexo da rápida perda geracional.
Para combater essa tendência, Danielle criou o SkoBot, um pequeno robô de ensino de idiomas. Inspirado em um brinquedo falante, o SkoBot se parece com um animal da floresta e se encaixa no ombro do usuário para facilitar a conversa. O robô utiliza a tecnologia de reconhecimento de fala para identificar uma palavra em inglês e reproduzir a tradução em Anishinaabemowin, com áudios gravados por crianças da comunidade.
A tecnologia a serviço da cultura
O projeto de Danielle não é um caso isolado. O professor Jared Coleman, da tribo Paiute de Owens Valley, na Califórnia, também usou a tecnologia para preservar sua língua nativa, que não era falada fluentemente em sua família desde seu bisavô, que foi proibido de usá-la em um internato.
Coleman utilizou os modelos de linguagem da OpenAI (GPT-3.5-turbo e GPT-4) para criar um sistema de IA treinado com palavras do Paiute de Owens Valley. A partir disso, ele desenvolveu um dicionário online, um construtor de frases e um tradutor. O objetivo principal é ajudar os membros de sua comunidade, mas ele espera também despertar o interesse de turistas que visitam a região.
Os desafios éticos da IA na preservação linguística
Apesar do potencial, os tecnólogos estão sendo cautelosos. Danielle Boyer, por exemplo, optou por vozes pré-gravadas em vez de áudio gerado por IA. Para ela, “idiomas são seres vivos” e o aprendizado deve ser uma experiência humana, não se limitando a um robô. Os membros da comunidade que gravaram os áudios mantêm a propriedade sobre eles, como parte de uma estrutura ética desenvolvida para o projeto.
Jared Coleman também foi cuidadoso, evitando usar gravações de anciãos, incluindo seu bisavô, para treinar o modelo de IA, para não explorar os dados ou usá-los de forma indevida. “Algumas das gravações pertencem a pessoas diferentes… algumas delas são canções sagradas, algumas delas contam histórias sagradas, então temos sido muito cuidadosos com o que usamos para treinar os modelos”, explicou.
Outra preocupação é a precisão. Tanto Boyer quanto Coleman notaram que chatbots de IA tradicionais produzem traduções imprecisas das línguas de suas comunidades, o que pode levar a interpretações erradas de suas culturas. A linguagem, como diz Coleman, é “muito mais do que apenas palavras. Ela codifica toda uma cultura e, junto com ela, toda uma história”.